Paranhos II
Porto, 2024–25
Equipa
João Paupério
Maria Rebelo
Francisco Craveiro
Cozinha
fala
Paisagem
pomo
Fotografia
Francisco Ascensão
Paranhos II
Porto, 2024–25
Para além de pequenas reparações, duas caixas de madeira inspiradas nas camas-armários medievais.
Em co-autoria com Francisco Craveiro.
Transformar o espaço de uma antiga oficina automóvel em habitação abre novas possibilidades para a arquitectura da casa, assumindo que esta não seja entendida como tal. Ou seja, se partirmos do pressuposto que não nos esforçamos em vão para encaixar num espaço inabitável as imagens, os preceitos e as formas do habitar que herdamos, cristalizadas. No fundo, se um lar não for uma casa, como escreveu Reyner Banham em 1965. Em certa medida, se considerada como fragmento de uma cidade mais ampla, a casa não passa de um abrigo para proteger os seus habitantes da intempérie, satisfazer as suas necessidades fisiológicas mais imediatas, ou garantir as inconveniências da privacidade. Desse ponto de vista, o espaço existente desta antiga garagem tem tanto de estranheza como de aptidão e, sobretudo, de uma generosidade cada vez mais inexistente na existência mínima que nos propõe hoje o mercado imobiliário.
O programa requeria apenas que o espaço fosse compartimentado em dois, entre o trabalho — sobre a cidade — e a casa — sobre o pequeno jardim, permeabilizado e povoado pelo atelier de paisagem pomo. A curva da parede que traduz esse pedido permite acentuar o sentimento de recolhimento para quem descobre a casa através de um labirinto. O espaço das instalações sanitárias foi reabilitado. Sobre o chão, as paredes e os tectos, a intervenção foi mínima. Na prática, consistiu no seu isolamento térmico e acústico, com cortiça aparente, assim como na substituição da caixilharia para garantir a devida eficiência energética. As pinturas foram uma exigência dos clientes. Para além destas pequenas reparações, o projecto consistiu em desenhar apenas duas caixas de madeira inspiradas nas camas-armários medievais: feitas de pinho nacional, MDF e painéis de cortiça. Instaladas sob as clarabóias existentes, estas garantem uma última camada de privacidade e conforto térmico para quem vive nesta espécie de acampamento, cuja fogueira é simbolizada pela nova salamandra. Para além da sua utilidade prática, o desenho desses compartimentos para dormir enquanto peças de mobiliário em vez de quartos insinua que será através desse processo de apropriações —através desses objetos coleccionados ao longo do tempo— que este recinto aberto de acabará por transformar num lar.
A prova desse movimento, sobre o qual não acreditamos dever ter total controlo enquanto arquitectos, é a cozinha desenhada pelo atelier fala e trazida para esta garagem como uma espécie de primeiro ready-made. Ao qual se seguiram as portas de entrada ou do quarto de banho, adquiridas online em segunda mão.